A chuva fina cai novamente lá fora, e a sensação de que o vazio tomou conta do quarto é maior, posso escutar o vento correndo pela fresta da janela, passo a passo ele esfria o quarto. Temer o frio é como temer o diagnóstico, não dá pra saber, a espera deixa tudo pior.
E lá vai o vento livre ora contínuo, ora sem ritmo, cantando a música da alma mais errante, mais feliz.
Nunca foi possível aprisionar o vento e nunca será, tentam recriar sua sensação mecanicamente, mas uma brisa de mar jamais será substituída.
Uma alma errante foi aprisionada em um corpo que teme demais, que sente demais, essa alma poderia ser um vento, aquele que bagunça nosso cabelo quando dobramos a esquina, ou o vento que transforma a morena bonita, na mais bela de todas as mulheres. Mas presa aqui nesse corpo ela não sabe e não conhece, as vezes por conta do cárcere ela se zanga e magoa tudo e todos a sua volta, mas quando faz isso se machuca mais ainda e perde a força de fugir dali. Está a cada dia mais conformada e assim vai ser até o dia que os muros da prisão estiverem fracos o suficiente para libertar novamente esse vento, porém nunca mais será o mesmo furacão, nem talvez uma brisa leve.
Esse vento tem um único desejo antes de sumir, isso é só o que importa.
Poder encontrar pela última vez aquela morena de olhar penetrante e ter certeza de que deu algum momento de felicidade a ela, e mais uma vez beijar seus belos cabelos com seu último suspiro de vento.
| Foto: André Abreu |